quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Video game music: várias facetas de uma mesma temática

Quando nos deparamos com o termo video game music (VGMusic ou VGM), relacionamos logo à trilha sonora de algum jogo. Seria essa a única associação possível? Apesar da trilha sonora musical composta para video games ter ganhado essa denominação, a cada dia que passa aumenta o número de bandas, grupos e músicos que trabalham com releituras dessas composições sob o mesmo rótulo.

O termo acabou se tornando quase um gênero musical. Quase, pois um gênero se define por características sonoras como ritmo, harmonia, melodia ou timbre e, mesmo que os grupos sejam de rock, jazz, rap ou qualquer outro estilo, todos se juntam sob esse mesmo rótulo: video game music.

Há também, no entanto, uma outra faceta desse estilo “musical” a qual apresenta composições inspiradas em jogos que, apesar de não usarem nenhum material sonoro de algum jogo específico, fazem referência ao seu enredo, personagens ou a qualquer outro elemento. Assim como um romance vivido, um fim de semana na praia ou um importante fato político, um jogo também inspira e serve de tema a composições musicais inéditas.

Atualmente há nomes como The Protomen, com sua ópera rock inspirada em personagens da série Megaman, fazendo a releitura do enredo do jogo aliada à música totalmente concebida pela banda, ou o Yakuza Heart Atack, que se autodenomina uma banda de NES-Core, trabalhando com chiptunes e com melodias inspiradas em jogos antigos. Entretanto, a história da cultura gamer já revelou outros artistas que fizeram de jogos de video game a temática de seu trabalho. Em 1982, a dupla Buckner & Garcia, de Akron, Ohio, lançaram a canção Pac-Man Fever, que chegou a entrar no Top 100 da Bilboard nesse mesmo ano. A canção integrou um álbum com mais sete faixas inspiradas em outros jogos da segunda geração de consoles, entre eles Donkey Kong e Frogger.

Mas essa não foi a primeira vez que um jogo ganhou uma composição musical dedicada a si. Em 1979 a banda australiana Player [1] lançou a canção intitulada Space Invader, inspirada no jogo de mesmo título. No jogo em questão inexistia qualquer composição musical. Os únicos sons supostamente musicais eram quatro notas em freqüências diferentes que se repetiam em uma pulsação rítmica regular. Segundo o criador do jogo, Tomohiro Nishikado – em entrevista exibida no documentário A Era do Video Game exibido pela Discovery Channel em 2007 – os sons foram produzidos na intenção de imitar a pulsação do coração, acelerando à medida em que os invasores espaciais se aproximavam do jogador.

Segue um vídeo não oficial no qual a música Pac-Man Fever, de Buckner & Garcia, é utilizada como trilha.




Confira também um vídeo não oficial com imagens de um filme tipo-B canadense e com a música Space Invaders, do Player [1], como trilha sonora. A banda foi lançada nos EUA como Playback, apesar de se tratar do mesmo grupo. Clique aqui para assistir ao vídeo.

13 comentários:

Alexo Maravalhas disse...

A expressão musical criada para o ambiente do entretenimento interativo, como alguns gostam de dizer, transcendeu o seu universo primário para outras esferas.

Se "video game music", termo que eu não simpatizo, se tornou um novo gênero, antes disso, prefiro a reflexão sobre a denominação de trilha sonora, de uma forma mais ampla como sendo uma categoria.

Talvez seja algo cultural mesmo, diferenciar a música de jogos de música feita para outras "finalidades" ou então, que ela seja entendida como arte aplicada, como as outras áreas onde a trilha musical é aplicada. Nesse ponto, a música para cinema, teatro ou publicidade, por exemplo, estaria na mesma condição.

Entendo que a nomenclatura, em tentativa de se definir como novo gênero, é equivocada, porém não deixa de ser uma informação complementar acerca do material de expressão musical. Ser trilha sonora (ou não ser), não diz nada em si, haja visto o que André nos coloca: qualquer gênero é passível de se tornar música de um game (folk, rock, erudito, eletrônico, jazz, música experimental, enfim).

Interessante é notar como as músicas de jogos extrapolam, por vezes, o universo dos jogos, invadindo a arte musical, de uma forma mais independente do game em si, diria. Um exemplo, talvez não tão perfeito, mas válido de citação, são algumas criações e encenações musicais teatralizadas feitas para ilustrar o universo de alguns jogos antigos, como War's Revenge ou Asteroids (na época disponíveis em K7 ou LPs como material promocional).

Recentemente algo similar também foi criado, por exemplo, para Silent Hill, só que na forma de narrativa (a música era apenas "pano de fundo").

Abraço, André. E seja bem-vindo ao blog! Alexo

André Luiz Oliveira disse...

Concordo plenamente com os pontos que você coloca, Alexo.

Sequer parei pra pensar se o termo "video game music" seria o mais ideal ou não. É como quando conheci o termo "música gótica". No primeiro momento fiquei tentando imaginar a música do período gótico. Eu nunca tinha ouvido falar que tinha uma música característica desse período a ponto de se denominar música gótica. Até eu entender que era algo do tipo o pós-punk mais meloso, obscuro, sinistro e que se chamava gótico pela relação entre a música mórbida, sombria e o gosto por cemitérios e a arquitetura gótica encontrada neles. Daí é que fui perceber alguma justificativa, mesmo que não me agradasse. Mesmo assim, o estilo já tinha ganhado esse nome mesmo sem ter relação com nenhum elemento musical, pois suas características remetem à estética visual, como vestes e maquilhagens, e estética literária. A música ainda continuava sendo o pós-punk, música eletrônica, rock, heavy metal...

Acho que tudo se resume no que o Alexo falou:

"Interessante é notar como as músicas de jogos extrapolam, por vezes, o universo dos jogos, invadindo a arte musical, de uma forma mais independente do game em si, diria."

E assim como os gêneros musicais regionais podem ser os mais diversos. Assim como a música nordestina pode conter os estilos mais variados, eu diria que video game music, mesmo não sendo o termo mais ideal, designa uma das regiões mais amplas que conheço (se não a mais ampla): a do mundo cultural dos video games.

Mas não o seria também a música para cinema? Talvez... Acredito que não por a música para cinema chegar até nós como um produto fechado e acabado. Mas isso seria assunto pra uma outra reflexão a qual não fiz ainda e não saberia opinar com tanta clareza...

Obrigado novamente pelas boas-vindas.

.o/

John disse...

Só sei que o André tá me devendo mais músicas do Protomen...

André Luiz Oliveira disse...

Opa! Tinha me esquecido completamente disso.

Acontece...

Alexo Maravalhas disse...

André, o que você quis dizer exatamente com "a música para cinema chegar até nós como um produto fechado e acabado"?

André Luiz Oliveira disse...

Bom... Nesse caso eu me referia à música como um elemento ligado ao enredo e à interatividade entre espectador/jogador e filme/video game.

No caso do cinema, a música geralmente acompanha a cena de forma que, se essa cena está te conduzindo à tensão, a música vem auxiliar isso. Mas está tudo pré-determinado. Se em 35 minutos de filme acontece uma briga e a trilha sonora acompanha essa briga, que termina aos 40 minutos, terminando também a música, está aí a cena. Se for assistir novamente, será novamente a mesma. Claro que o espectador não receberá da mesma forma que a primeira vez, mas os atores estarão no mesmo lugar, nos mesmos momentos. E a música para video game ainda parece estar um pouco "liberta" disso. Tenho a impressão de que isso a deixa um pouco mais independente.

E no fim das contas o que isso tem a ver com o que eu estava dizendo?

Acredito que a música para video games (e os antigos com muito mais efeito) acabam se desprendendo um pouco do enredo do jogo, mais do que a música para cinema. Quando ouço, por exemplo, o tema principal de Star Wars, já me vem logo à mente um conjunto de cenas que me recordo mais. Enfim, acaba sendo mais difícil de dissociar música de imagem, enredo, personagens. Antes de estar ligado aos games como agora, eu ouvia o tema Underworld, de Super Mario Bros, por exemplo, e nunca me lembrava de alguma cena específica ou algum elemento muito específico. Me lembrava do jogo como um todo e principalmente de uma época toda de forma bem geral... E acho que isso pode ser uma vantagem para a música do video game pensado dessa forma.

Alexo Maravalhas disse...

A, certo. É sobre as dinâmicas da música nos gêneros cinema e jogos. Realmente isso muda muita coisa nas duas mídias e é algo interessante pra se discutir.

É interessante também o que você diz sobre a música do cinema remeter com mais intensidade ao universo do filme do que a música feita para jogos. Talvez isso tenha a ver com a pontualidade com que a música para cinema seja usada, mais freqüentemente do que com jogos. Quero dizer, no cinema há mais momentos onde a música "ilustra" cenas específicas do que em jogos, que usa (e reusa) músicas de uma forma um pouco mais genérica, menos sutil que no cinema, diria.

Só não esqueça de uma coisa. Tanto no cinema, quanto nos jogos, a trilha tem a possibilidade de "sair" da sua utilização prática, indo pra esfera da arte musical de uma forma independente; é quando a música vira álbum. Especialmente no cinema, acontece que composições para pequenos trechos na telona acabam se tornando produtos próprios, com uma duração bem maior que a do filme. Não sei ao certo se essas faixas já são, desde o início, compostas completas e usadas menores no filme ou vice-versa.

Em jogos isso parece ser menos comum e, em geral, é o oposto: um tema deve ser composto com uma previsão de tempo folgada, pois em determinados momentos, na falta de interação do usuário, o sistema deve se repeti-la para não deixar o momento silencioso.

[s] alexo

André Luiz Oliveira disse...

Novamente concordo com suas palavras, Alexo. O que eu queria dizer comparando as duas é que, mesmo que a música para cinema também se torne independente do filme (e além disso ganha versões e releituras como qualquer outra trilha sonora), a música para video game (a partir da minha experiência), nesse sentido, ainda é mais independente.

Nesse caso, não sei quem está com a vantagem e nem tenho a intenção de comparar, ainda. Tem um artigo que o Raphael escreveu para a gamecultura falando de DirectSong, uma forma de utilizar a música nos games de modo que fique bem mais compatível às ações do jogador no momento em que acontecem. Segundo ele, esse DirecSong funciona com pedaços bem pequeno de música que serviriam de junção a outras músicas e seriam utilizados pra que a mudança de um tema a outro não parecesse tão brusca. Um trabalho bem árduo mesmo.
Aqui o link para o artigo (aqui em casa só abriu no Internet Explorer).

Apesar de ser uma idéia legal, acho que prejudicaria de outra forma. Não sei como nomear isso, mas penso a música dos jogos antigos grudou nas nossas cabeças por ser repetitiva. Não apenas por isso, mas acho que principalmente. Se demoráva-mos a passar determinada fase de um jogo, tínhamos que ouvir a mesma música até nos cansar. Todos nos lembramos do primeiro tema tocado em Street Fighter II, mas nem todo mundo se lembra do último. Chegava a ser meio hipnótico. O que na época poderia ser considerado chato e limitado é hoje o motivo da existência de muito projeto artístico.

Novamente a comparação com o cinema. Vou pegar um exemplo mais recente: SAW (Jogos Mortais). Sempre me vem à mente aquele tema que toca nos trailers e, que eu me lembre, no momento mais tenso dos filmes dessa série, o final. Se me perguntarem como é a música de outros momentos, não me lembrarei de nenhuma. E nem se eu ouvir a música não saberei que é do filme. Já os jogos nos obrigam a ouvir a mesma música por vezes e vezes, acabando por nos obrigar a "gostar" também. A questão é: isso seria uma vantagem? Até que ponto? Ou seria uma desvantagem?

Juunin disse...

eu gosto de protomen... XD

Rogério disse...

Genntemmmm, 2000 séculos depois, PACMAN FEVER só trouxe recordações... TK85, MSX, TK3000... BONS TEMPOS? eca... mas 10 a musica!

Rogério disse...

Gente... PACMAN FEVER é muito divertido... só trouxe lembranças [já estou pensando em virar museu!]... CP200, TK85, MSX, TK3000!!! AHAHAHAHA... Gostei da matéria e me espanto em como o computador trouxe alterações sociais. O poder de mudar tanto o mercado de trabalho, de deslocar toda uma nova geração para games, musicos e artistas especializados em games, é uma devastadora constatação de nossos tempos estão indo pelo ralo, e novos tempos virão...

Marcio Melo disse...

Man, simplesmente sensacional hahaha

André Luiz Oliveira disse...

Pois é, Rogério.E acho que não só os computadores, mas praticamente todos os assuntos possíveis têm uma cultura envolvida e a arte sempre se intromete de alguma forma. heuehuhuhehue
Mas o que mais me impressiona é como o caso do video game é tão interativo e divertido. Como é impactante. Pelo menos a mim, a nostalgia com relação aos games é muito mais forte que qualquer outra coisa. E nas vezes que já mostrei a música desses jogos a pessoas que se lembraram, parece que o brilho nos olhos delas era diferente, parece que não traz só a recordação, mas a recordação de algo muito feliz.

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